quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Câncer da pele

O câncer da pele responde por 33% de todos os diagnósticos desta doença no Brasil, sendo que o Instituto Nacional do Câncer (INCA) registra, a cada ano, cerca de 180 mil novos casos. O tipo mais comum, o câncer da pele não melanoma, tem letalidade baixa, porém, seus números são muito altos. A doença é provocada pelo crescimento anormal e descontrolado das células que compõem a pele. Essas células se dispõem formando camadas e, de acordo com as que forem afetadas, são definidos os diferentes tipos de câncer. Os mais comuns são os carcinomas basocelulares e os espinocelulares. Mais raro e letal que os carcinomas, o melanoma é o tipo mais agressivo de câncer da pele.
Carcinoma basocelular (CBC): o mais prevalente dentre todos os tipos. O CBC surge nas células basais, que se encontram na camada mais profunda da epiderme (a camada superior da pele). Tem baixa letalidade e pode ser curado em caso de detecção precoce. Os CBCs surgem mais frequentemente em regiões expostas ao sol, como face, orelhas, pescoço, couro cabeludo, ombros e costas. Podem se desenvolver também nas áreas não expostas, ainda que mais raramente. Em alguns casos, além da exposição ao sol, há outros fatores que desencadeiam seu surgimento. Certas manifestações do CBC podem se assemelhar a lesões não cancerígenas, como eczema ou psoríase. Somente um médico especializado pode diagnosticar e prescrever a opção de tratamento mais indicada. O tipo mais encontrado é o CBC nódulo-ulcerativo, que se traduz como uma pápula vermelha, brilhosa, com uma crosta central, que pode sangrar com facilidade.
Carcinoma espinocelular (CEC): segundo mais prevalente dentre todos os tipos de câncer. Manifesta-se nas células escamosas, que constituem a maior parte das camadas superiores da pele. Pode se desenvolver em todas as partes do corpo, embora seja mais comum nas áreas expostas ao sol, como orelhas, rosto, couro cabeludo, pescoço etc. A pele nessas regiões, normalmente, apresenta sinais de dano solar, como enrugamento, mudanças na pigmentação e perda de elasticidade. O CEC é duas vezes mais frequente em homens do que em mulheres. Assim como outros tipos de câncer da pele, a exposição excessiva ao sol é a principal causa do CEC, mas não a única. Alguns casos da doença estão associados a feridas crônicas e cicatrizes na pele, uso de drogas antirrejeição de órgãos transplantados e exposição a certos agentes químicos ou à radiação. Normalmente, os CECs têm coloração avermelhada e se apresentam na forma de machucados ou feridas espessos e descamativos, que não cicatrizam e sangram ocasionalmente. Eles podem ter aparência similar à das verrugas. Somente um médico especializado pode fazer o diagnóstico correto.
Melanoma: tipo menos frequente dentre todos os cânceres da pele, o melanoma tem o pior prognóstico e o mais alto índice de mortalidade. Embora o diagnóstico de melanoma normalmente traga medo e apreensão aos pacientes, as chances de cura são de mais de 90%, quando há detecção precoce da doença. O melanoma, em geral, tem a aparência de uma pinta ou de um sinal na pele, em tons acastanhados ou enegrecidos. Porém, a “pinta” ou o “sinal”, em geral, mudam de cor, de formato ou de tamanho, e podem causar sangramento. Por isso, é importante observar a própria pele constantemente, e procurar imediatamente um dermatologista caso detecte qualquer lesão suspeita. Essas lesões podem surgir em áreas difíceis de serem visualizadas pelo paciente, embora sejam mais comuns nas pernas, em mulheres; nos troncos, nos homens; e pescoço e rosto em ambos os sexos. Além disso, vale lembrar que uma lesão considerada “normal” para um leigo, pode ser suspeita para um médico.
Pessoas de pele clara e que se queimam com facilidade quando se expõem ao sol, com fototipos I e II, têm mais risco de desenvolver a doença, que também pode manifestar-se em indivíduos negros ou de fototipos mais altos, ainda que mais raramente. O melanoma tem origem nos melanócitos, as células que produzem melanina, o pigmento que dá cor à pele. Normalmente, surge nas áreas do corpo mais expostas à radiação solar. Em estágios iniciais, o melanoma se desenvolve apenas na camada mais superficial da pele, o que facilita a remoção cirúrgica e a cura do tumor. Nos estágios mais avançados, a lesão é mais profunda e espessa, o que aumenta a chance de se espalhar para outros órgãos (metástase) e diminui as possibilidades de cura. Por isso, o diagnóstico precoce do melanoma é fundamental. Embora apresente pior prognóstico, avanços na medicina e o recente entendimento das mutações genéticas, que levam ao desenvolvimento dos melanomas, possibilitaram que pessoas com melanoma avançado hoje tenham aumento na sobrevida e na qualidade de vida.
A hereditariedade desempenha um papel central no desenvolvimento do melanoma. Por isso, familiares de pacientes diagnosticados com a doença devem se submeter a exames preventivos regularmente. O risco aumenta quando há casos registrados em familiares de primeiro grau.
Atualmente, testes genéticos são capazes de determinar quais mutações levam ao desenvolvimento do melanoma avançado (como BRAF, cKIT, NRAS, CDKN2A, CDK4) e, assim, possibilitam a escolha do melhor tratamento para cada paciente. Apesar de ser raramente curável, já é possível viver com qualidade, controlando o melanoma metastático por longo prazo.
O câncer da pele pode se assemelhar a pintas, eczemas ou outras lesões benignas. Assim, conhecer bem a pele e saber em quais regiões existem pintas, faz toda a diferença na hora de detectar qualquer irregularidade. Somente um exame clínico feito por um médico especializado ou uma biópsia podem diagnosticar o câncer da pele, mas é importante estar sempre atento aos seguintes sintomas:
Uma lesão na pele de aparência elevada e brilhante, translúcida, avermelhada, castanha, rósea ou multicolorida, com crosta central e que sangra facilmente;
Uma pinta preta ou castanha que muda sua cor, textura, torna-se irregular nas bordas e cresce de tamanho;
Uma mancha ou ferida que não cicatriza, que continua a crescer apresentando coceira, crostas, erosões ou sangramento.
Além de todos esses sinais e sintomas, melanomas metastáticos podem apresentar outros, que variam de acordo com a área para onde o câncer avançou. Isso pode incluir nódulos na pele, inchaço nos gânglios linfáticos, falta de ar ou tosse, dores abominais e de cabeça, por exemplo.
A seguir, a metodologia indicada por dermatologistas para reconhecer as manifestações dos três tipos de câncer da pele: carcinoma basocelular, carcinoma espinocelular e melanoma. Para auxiliar na identificação dos sinais perigosos, basta seguir a Regra do ABCDE. Mas, em caso de sinais suspeitos, procure sempre um dermatologista. Nenhum exame caseiro substitui a consulta e avaliação médica.
Todos os casos de câncer da pele devem ser diagnosticados e tratados precocemente, inclusive os de baixa letalidade, que podem provocar lesões mutilantes ou desfigurantes em áreas expostas do corpo, causando sofrimento aos pacientes. Felizmente, há diversas opções terapêuticas para o tratamento do câncer da pele não-melanoma. A modalidade escolhida varia conforme o tipo e a extensão da doença, mas, normalmente, a maior parte dos carcinomas basocelulares ou espinocelulares pode ser tratada com procedimentos simples. Conheça os mais comuns:
-Cirurgia excisional: remoção do tumor com um bisturi, e também de uma borda adicional de pele sadia, como margem de segurança. Os tecidos removidos são examinados ao microscópio, para aferir se foram extraídas todas as células cancerosas. A técnica possui altos índices de cura, e pode ser empregada no caso de tumores recorrentes.
-Curetagem e eletrodissecção: usadas em tumores menores, promovem a raspagem da lesão com cureta, enquanto um bisturi elétrico destrói as células cancerígenas. Para não deixar vestígios de células tumorais, repete-se o procedimento algumas vezes. Não recomendáveis para tumores mais invasivos.
-Criocirurgia: promove a destruição do tumor por meio do congelamento com nitrogênio líquido. A técnica tem taxa de cura menor do que a cirurgia excisional, mas pode ser uma boa opção em casos de tumores pequenos ou recorrentes. Não há cortes ou sangramentos. Também não é recomendável para tumores mais invasivos.
-Cirurgia a laser: remove as células tumorais usando o laser de dióxido de carbono ou erbium YAG laser. Por não causar sangramentos, é uma opção eficiente para aqueles que têm desordens sanguíneas.
-Cirurgia Micrográfica de Mohs: o cirurgião retira o tumor e um fragmento de pele ao redor com uma cureta. Em seguida, esse material é analisado ao microscópio. Tal procedimento é repetido sucessivamente, até não restarem vestígios de células tumorais. A técnica preserva boa parte dos tecidos sadios, e é indicada para casos de tumores mal-delimitados ou em áreas críticas principalmente do rosto, onde cirurgias amplas levam a cicatrizes extensas e desfiguração.
-Terapia Fotodinâmica (PDT): o médico aplica um agente fotossensibilizante, como o ácido 5-aminolevulínico (5-ALA) na pele lesada. Após algumas horas, as áreas são expostas a uma luz intensa que ativa o 5-ALA e destrói as células tumorais, com mínimos danos aos tecidos sadios.
Além das modalidades cirúrgicas, a radioterapia, a quimioterapia, a imunoterapia e as medicações orais e tópicas são outras opções de tratamentos para os carcinomas. Somente um médico especializado em câncer da pele pode avaliar e prescrever o tipo mais adequado de terapia.
Melanoma
O tratamento varia conforme a extensão, agressividade e localização do tumor, bem como a idade e o estado geral de saúde do paciente. As modalidades mais utilizadas são a cirurgia excisional e a Cirurgia Micrográfica de Mohs (citadas acima). Na maioria dos casos, o melanoma metastático não tem cura, por isso é importante detectar e tratar a doença o quanto antes. Embora não tenha cura, o tratamento do melanoma avançado evoluiu muito nas últimas décadas; hoje já é possível viver por mais tempo e com mais qualidade, controlando a doença em longo prazo. Para isso, é importante que os pacientes passem por testes genéticos capazes de determinar quais mutações apresentam (como BRAF, cKIT, NRAS, CDKN2A, CDK4), possibilitando, assim, a escolha dos tratamentos que podem trazer melhores resultados em cada caso. Mais de 90% dos pacientes com a alteração genética BRAF, por exemplo, podem se beneficiar do tratamento com terapia-alvo oral, capaz de retardar a progressão do melanoma e melhorar a qualidade a vida. Outros tratamentos podem ser recomendados, isoladamente ou em combinação, para o tratamento dos melanomas avançados, incluindo quimioterapia, radioterapia e imunoterapia.




terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Pesquisa indica que casca da jabuticaba previne diabetes e melhora funções hepáticas

Pesquisa do Instituto de Biologia da Unicamp (IBUnicamp), realizada em camundongos idosos, comprovou o poder do extrato da casca da jabuticaba na redução de gordura e inflação no fígado, além da prevenção do pré-diabetes.
As doses do extrato do fruto aumentaram os índices do colesterol bom- o HDL-, diminuíram a hiperglicemia, além de trabalhar como um aliado do metabolismo de lipídeos –moléculas de gordura..
Descontrolados, fatores como o colesterol bom e hiperglicemia estão presentes no pré-diabetes.
A pesquisa, que foi publicada no Journal of Functional Foods, durou quatro anos e foi coordenada pela professora do IBUnicamp Valéria Helena Alves Cagnon Quitete, para defesa de tese de doutorado da pesquisadora Celina de Almeida Lamas.
“Este resultado [pesquisa] é o primeiro de outros que estamos enviando”, disse a professora Valéria Quitete. Ela confirmou também que os resultados estão ligados a camundongos envelhecidos porque são mais vulneráveis ao pré-diabetes e outras alterações hormonais.
De acordo com os pesquisadores, ainda não há prazo para que o extrato da casca da jabuticaba seja usado em seres humanos, mas uma empresa nacional está o licenciando para usá-lo comercialmente.
O uso do extrato da casca da jabuticaba foi feito pelo Instituto de Biologia em parceria com o Instituto de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, que estuda frutas vermelhas.
Para se chegar ao resultado, os pesquisadores dividiram os camundongos em vários grupos. Um deles tinha animais jovens com três meses de idade. Eles receberam a dieta padrão. Outro grupo tinha camundongos com 11 meses de idade, mas com dieta rica em gordura.
Dois outros grupos, que tinham animais envelhecidos, receberam doses de 2,9 ou 5,8 gramas de extrato de jabuticaba por quilo de peso. Também receberam uma dieta padrão por dois meses, segundo a professora Valária Quitete.
Dois outros grupos de animais envelhecidos receberam uma dose de 2,9 ou 5,8 gramas de extrato por quilo e uma dieta rica em gordura por 60 dias.
Os resultados apontaram que os camundongos envelhecidos não tiveram ganho de peso, reduziram o processo inflamatório e os parâmetros do pré-diabetes.
Este estudo associado a uma segunda pesquisa do grupo comprovou também a melhora significativa na estrutura da próstata e nos processos inflamatórios.

Pé de jabuticaba no Sul de Minas — Foto: Carlos Cazelato/Reprodução EPTV

Fonte: G1.Globo. Campinas: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2018/12/09/casca-da-jabuticaba-atua-na-prevencao-do-pre-diabetes-e-melhora-funcoes-hepaticas-diz-unicamp.ghtml

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Novembro Azul

O mês de Novembro é o mês oficial do combate mundial ao câncer de próstata. O câncer de próstata, tipo mais comum entre os homens, é a causa de morte de 28,6% da população masculina que desenvolve neoplasias malignas. No Brasil, um homem morre a cada 38 minutos devido ao câncer de próstata, segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional do Câncer (Inca).
A próstata é uma glândula do sistema reprodutor masculino, que pesa cerca de 20 gramas, e se assemelha a uma castanha. Ela localiza-se abaixo da bexiga e sua principal função, juntamente com as vesículas seminais, é produzir o esperma.
Na fase inicial, o câncer de próstata não apresenta sintomas e quando alguns sinais começam a aparecer, cerca de 95% dos tumores já estão em fase avançada, dificultando a cura. Na fase avançada, os sintomas são dor óssea, dores ao urinar, vontade de urinar com frequência e presença de sangue na urina e/ou no sêmen.
Os fatores de risco são histórico familiar de câncer de próstata: pai, irmão e tio; raça: homens negros sofrem maior incidência deste tipo de câncer; obesidade.
A única forma de garantir a cura do câncer de próstata é o diagnóstico precoce. Mesmo na ausência de sintomas, homens a partir dos 45 anos com fatores de risco, ou 50 anos sem estes fatores, devem ir ao urologista para conversar sobre o exame de toque retal, que permite ao médico avaliar alterações da glândula, como endurecimento e presença de nódulos suspeitos, e sobre o exame de sangue PSA (antígeno prostático específico). Cerca de 20% dos pacientes com câncer de próstata são diagnosticados somente pela alteração no toque retal. Outros exames poderão ser solicitados se houver suspeita de câncer de próstata, como as biópsias, que retiram fragmentos da próstata para análise, guiadas pelo ultrassom transretal.
A indicação da melhor forma de tratamento vai depender de vários aspectos, como estado de saúde atual, estadiamento da doença e expectativa de vida. Em casos de tumores de baixa agressividade há a opção da vigilância ativa, na qual periodicamente se faz um monitoramento da evolução da doença intervindo se houver progressão da mesma.



quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Estamos preparados para lidar com as alterações genéticas?

Alterações genéticas podem se tornar uma das ferramentas mais poderosas no tratamento de doenças, mas será que podem mudar o que significa ser humano?

Um dos momentos mais memoráveis no grande sucesso de bilheteria de 1993, Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros, dirigido por Steven Spielberg, é a tensa conversa entre os cientistas em uma mesa de jantar sobre a ética de usar engenharia genética no parque. O principal argumento é usado pelo personagem de Jeff Goldblum, o teórico do caos Ian Malcolm:
“O poder genético é a força mais incrível que o planeta já viu, mas vocês o utilizam como uma criança que encontrou o revólver do pai... os cientistas estavam tão preocupados com o que poderiam ou não fazer, mas não pararam para pensar se deveriam.”
Isso foi em 1993. A ciência genética mudou muito deste então. Em 1996, a ovelha Dolly se tornou o primeiro animal totalmente clonado. E, em 2003, o genoma humano foi finalmente sequenciado integralmente.
Em novembro de 2017, tivemos o mais recente marco nesta relação cada vez mais íntima e complexa com nossos genes. Brian Madeux, um californiano de 44 anos, recebeu uma injeção com cópias de um gene corretivo na tentativa de curá-lo da síndrome de Hunter. A injeção visava alterar diretamente o código genético de Madeux, removendo partes defeituosas de seu genoma.
Em caso de êxito, esse tratamento representará um passo importante nas aplicações médicas da tecnologia de alteração genética. Mas será que estamos abrindo uma caixa de Pandora? Agora que podemos, será que não precisamos parar e perguntar se realmente devemos?

Estamos alterando nossos genes, ou os genes das próximas gerações?

Antes de mais nada, é importante diferenciar dois tipos de modificação genética: somática e germinativa.
Cada organismo multicelular tem dois tipos de células: somáticas e germinativas. As células somáticas são as que compõem a maior parte do nosso corpo: pele, cabelo, sangue e órgãos. As células germinativas, por outro lado, são células reprodutivas, ou seja, podem se unir a outras células durante a fertilização e criar um embrião.
As alterações somáticas, como a que foi feita para curar Madeux, modificam somente os genes de uma parte específica do corpo humano, como uma cirurgia precisa, e representam um campo promissor da biotecnologia.
Por exemplo, Casebia, uma joint venture entre a Bayer e a CRISPR Therapeutics, pretende aplicar as técnicas da alteração de células somáticas para enfrentar alguns dos problemas de saúde mais desafiadores do mundo, como algumas doenças que ainda estão longe de serem solucionadas com tratamentos médicos tradicionais.
Entre essas doenças estão a cegueira, que é provocada em grande parte por fatores genéticos. A cegueira tem várias causas, como degenerações maculares (comprometimento da mácula, uma área pequena e crucial no meio da retina) e retinites pigmentosas (comprometimento e perda de células da retina). Elas são o resultado de centenas de mutações genéticas que estamos apenas começando a entender.
No entanto, a alteração somática permite aos engenheiros genéticos identificar com precisão esses genes e tomar medidas para corrigi-los. Ainda que estejamos dando somente os primeiros passos, essa técnica tem o potencial de livrar a humanidade de doenças que têm nos afetado durante toda a existência da nossa espécie.
No entanto, as alterações germinativas são um fenômeno mais complicado e muito mais controverso.

O problema com a linha germinativa

A alteração da linha germinativa significa adulterar genes responsáveis por transportar as informações genéticas replicadas em todas as células que são reproduzidas após a modificação genética. Em outras palavras, essas alterações podem ser passadas para os futuros descendentes dos pacientes. Ou seja, filhos e netos. E, possivelmente, para toda a humanidade.
Por isso, não surpreende que o possível impacto da alteração germinativa nas gerações futuras, e não somente no paciente atual, apresente problemas éticos significativamente maiores. Esses problemas podem ser divididos em três áreas principais:

1) Consentimento: Como as futuras gerações não têm como opinar sobre a forma como alteramos os genes que herdarão, podemos afirmar que é ético fazer esse tipo de modificação definitiva no que significa ser humano, sem o consentimento daquele que sofrerá diretamente as consequências? Especialmente porque esses genes não serão apenas herdados por nossos filhos, mas pelos filhos de nossos filhos e pelos filhos deles, infinitamente.
Isso tudo significa que uma decisão tomada hoje pode afetar as vidas de pessoas que ainda nem nasceram, e de maneiras que ainda não temos como precisar.

2) Complexidade: Mesmo com os grandes avanços para compreender a genética humana, a modificação genética ainda é uma ciência imprecisa. Os genomas são sistemas complexos. Todos os genes dentro de um genoma estão interligados, e se mudarmos apenas um gene, não sabemos exatamente o que pode acontecer com os outros.
O desafio real surge no fato de que alguns atributos genéticos são conhecidos como expressões poligênicas, ou seja, exigem a cooperação de muitos genes. Isso não apenas dificulta ainda mais a precisão da alteração genética, como também pode causar mudanças negativas e imprevistas.
"Problemas como o autismo ou a esquizofrenia têm componentes hereditários, mas existem centenas de genes envolvidos nesse processo", afirma o professor Ernst-Ludwig Winnacker, ex-secretário geral da organização Human Frontier Science Program e ex-membro do Conselho Nacional de Ética da Alemanha. "Essa interconexão ainda não foi completamente desvendada. Ninguém pode prever ao certo o que acontecerá se você fizer alterações no genoma. Isso torna os experimentos na linha germinativa muito perigosos."
Embora o problema da complexidade exista na modificação de genes somáticos, nesses casos a alteração pode ser realizada por etapas, permitindo aos médicos observar expressões genéticas inesperadas e corrigi-las. Essas opções não existem na alteração de células germinativas. "Pode haver consequências inesperadas", comenta o professor Winnacker. Mas depois de alterar a linha germinativa, não há como voltar e fazer correções para os herdeiros desses genes. “Não há etapas no campo da reprodução. A única etapa é um bebê.”

3) Riscos sociais: Alterar com precisão células germinativas também acarreta novos problemas, em especial a forma como concebemos os seres humanos, individualmente e socialmente. "Uma preocupação real é a possibilidade de criarmos uma sociedade de duas classes, dividida entre aqueles que podem bancar alterações germinativas, caso isso venha de fato a funcionar, e aqueles que não têm condições de pagar por isso", continua o professor Winnacker.
Podemos começar com a tentativa de erradicar doenças graves, mas o limite do que é aceitável alterar pode continuar sendo ampliado para incluir altura, peso ou cor dos olhos. "Para mim, isso começa a se transformar em eugenia", conclui o professor, em referência ao controverso movimento ocorrido entre o final do século 19 e início do século 20 que deu origem ao fascismo. Se isso fosse permitido, alerta Winnacker, “os pais se sentiriam obrigados a eliminar suas mutações genéticas por motivos sociais, reforçando estigmas e diferenças sociais.”
De qualquer forma, precisamos ter em mente que, em mãos erradas, a tecnologia da alteração genética pode transformar o modo como pensamos em nós mesmos enquanto seres humanos.
Protegendo o futuro da humanidade

Protegendo o futuro da humanidade

Esses debates éticos costumavam estar limitados ao âmbito da ficção e especulação. Mas à medida em que as alterações genéticas deixam o campo da ficção científica e entram em laboratórios do mundo real, aumenta a necessidade de definirmos os limites morais da ciência.
Em dezembro de 2015, a Cúpula Internacional sobre Edição Genética Humana (organizada pelas academias de ciências naturais dos EUA, Reino Unido e China), com participação do professor Winnacker, concluiu que era necessário postergar “alterações genéticas em gametas ou embriões, que serão transmitidos por todas as células de uma criança descendente e serão passadas para as futuras gerações como parte do conjunto genético humano”, até que a tecnologia se desenvolvesse de forma responsável.
O modo como essas recomendações foram seguidas ao redor do mundo varia. Em muitos lugares, existem diferentes legislações e diretrizes definindo o que é permitido na pesquisa de linha germinativa ou hereditária. Hoje, 40 países já aprovaram leis que restringem ou banem modificações da linha germinativa. Alguns países baniram qualquer tipo de pesquisa, outros permitem somente pesquisas realizadas em laboratório, sem envolver gestações, e alguns simplesmente não adotaram nenhum tipo de legislação.
A tecnologia de alteração genética tem um potencial incrível e um poder imensurável. Para descobrirmos os inúmeros benefícios que esse campo pode nos proporcionar, precisamos avançar em direção a um consenso ético e científico. Há muito que ainda não sabemos sobre sistemas tão complexos quanto a genética e a reprodução humana. Antes de prosseguirmos com as pesquisas simplesmente porque temos essa capacidade, é importante nos perguntarmos se isso é algo que devemos fazer.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Nobel de Química premia trio por estudos sobre evolução das enzimas


A Academia da Súecia anunciou, na manhã do dia 3 de outubro de 2018, que os norte-americanos Frances Arnold e George Smith e o britânico Gregory Winter venceram o prêmio Nobel de Química de 2018.

Arnold é a quinta mulher na história a conquistar a honraria. Ao vencer o prêmio Nobel de Química, a pesquisadora se une a Donna Strickland como mais uma mulher a ser premiada em 2018, um feito raro na Academia. Strickland ganhou ontem o Nobel de Física, sendo a terceira na história a receber a honraria.

Por suas pesquisas sobre a evolução das enzimas, proteínas que catalisam reações químicas, Arnold ficará com metade do prêmio de 9 milhões de coroas suecas, o equivalente a R$ 4 milhões. Ela trabalha no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech).

Seus métodos são usados para desenvolver novos catalisadores e se aplicam na criação de substâncias químicas mais amigáveis ao meio ambiente, como em remédios, e na produção de novos combustíveis renováveis.

A outra metade do prêmio ficará com Smith, da Universidade do Missouri, e Winter, do Conselho de Pesquisa Médica de Cambridge. O norte-americano desenvolveu um método conhecido como "exposição de fago", no qual esse tipo de vírus que infecta bactérias é usado para criar novas proteínas.

Por sua vez, o britânico empregou essa técnica para a evolução de anticorpos na produção de novos medicamentos. O primeiro remédio baseado nesse método foi aprovado em 2002 e é usado para tratar artrite reumatoide, psoríase e doenças inflamatórias intestinais.
A mesma técnica também pode ser utilizada pelos médicos no combate a metástases de tumores e em patologias autoimunes.

"O poder da evolução é revelado por meio da diversidade da vida. Os vencedores do Nobel assumiram o controle da evolução e a usaram para propósitos que trazem grandes benefícios para a humanidade", anunciou a Real Academia de Ciências da Suécia.


Veja os textos premiados em: 


quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Dia do Médico: data de celebração e busca por melhores condições de trabalho

As mudanças legislativas, a escassa disponibilização de recursos e a falta de reconhecimento da classe são algumas adversidades no dia a dia dos médicos, independentemente da especialidade. Apesar desse difícil quadro, o Dia do Médico (nesta quinta-feira, dia 18), deve ser lembrado pelas ações destes profissionais ao contornar dificuldades para atender às necessidades dos pacientes.

Por entender esses desafios e adversidades no exercício de diversas profissões, a ANAMT atenta para a importância de ambientes adequados e saudáveis para todos. Que a data seja de celebração para os profissionais e que busquemos as melhores condições de trabalho para os médicos.

Ampliar o debate sobre a importância da categoria é uma forma de levar a discussão para além da classe médica e alcançar outras esferas da sociedade, atendida por esses dedicados profissionais e diretamente prejudicada pelas condições precárias, ocasionadas pela desatenção ao setor.

Assim como outras profissões, a Medicina envolve riscos biológicos, ergonômicos e sociais no exercício da profissão, aspectos que a ANAMT busca reduzir para preservar a saúde e o bem-estar dessas pessoas no local de trabalho. Como seus pacientes, os médicos também são trabalhadores e a saúde deles também deve ser assistida adequadamente.

A ANAMT celebra aqui o trabalho desempenhado por todos os médicos brasileiros, ainda que diversos percalços existam, e parabeniza os colegas pela coragem e determinação diária em busca do mesmo objetivo: ajudar o próximo.



segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Que tal trocar um livro que você já leu por um livro que você gostaria de ler?


Funciona assim...

Deixe um livro literário e leve um em troca.
Se quiser você pode deixar sua doação literária, mesmo que não leve nenhum livro em troca, pois outras pessoas podem amar os livros que um dia você também amou.
O único controle será sempre sua consciência.
Leia... Leia muito e seja feliz!!!

Compartilhe seus momentos de leitura conosco, usando as hashtags #lendonobiomedico 
e #bib80anos

Este projeto faz parte da comemoração dos 80 anos da Biblioteca do Instituto Biomédico.

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