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terça-feira, 1 de junho de 2021

Fungo negro: Brasil teve 29 casos de mucormicose neste ano

O Brasil registrou neste ano até agora 29 casos de mucormicose - infecção conhecida popularmente como "fungo negro" - comparado com 36 casos em todo o ano de 2020, informou o Ministério da Saúde à BBC News Brasil.
Os dados são baseados em notificações feitas pelos Estados.
O Ministério da Saúde esclarece, no entanto, que "não é possível relacionar, até o momento, os casos de mucormicose registrados no Brasil com a covid-19 e as variantes do vírus".
Apesar disso, o número de casos só neste ano chama atenção, pois já está próximo do total em todo o ano passado, e coincide com o agravamento da pandemia de covid-19 no país.
Conhecida popularmente como "fungo negro", a mucormicose é causada por fungos e vem registrando um crescimento vertiginoso na Índia, onde já acometeu quase 9 mil pacientes com covid-19.
A doença mata mais de 50% dos acometidos. Muitos precisam passar por cirurgias mutilantes, que retiram partes do corpo afetadas pelo micro-organismo, como os olhos.
Em entrevista recente à BBC Brasil, epidemiologistas disseram que, embora os relatos vindos da Índia sejam preocupantes e precisem ser acompanhados de perto, não são motivo de grande alarme.
Eles acrescentaram ser improvável que um cenário parecido se repita no Brasil ou em outros lugares do mundo."Essa situação local não constitui uma ameaça à saúde pública global", disse o infectologista Alessandro Comarú Pasqualotto, professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. 
"A mucormicose não é algo que vai se espalhar pelo mundo", acrescentou o também infectologista Flávio de Queiroz Telles Filho, professor da Universidade Federal do Paraná.
Esse baixo potencial de perigo pode ser explicado por dois motivos:
Em primeiro lugar, esses fungos são conhecidos e estudados desde o final do século 19.
Segundo, eles já circulam livremente por boa parte do mundo, inclusive no Brasil.

GETTY IMAGES


segunda-feira, 15 de março de 2021

Fiocruz recebe primeiro registro da Anvisa para vacina Covid-19 produzida no Brasil

Na manhã de sexta-feira (12/3), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) concedeu o registro definitivo da vacina Covid-19 Fiocruz. Com isso, a Fiocruz passa a ser a detentora do primeiro registro de uma vacina covid-19 produzida no país e incorpora ao seu portfolio de produção a décima primeira vacina a ser fornecida para o Programa Nacional de Imunizações (PNI). Com o registro, a expectativa é de que a Anvisa autorize a liberação dos primeiros lotes até este domingo (14/3) para que, na próxima semana, a Fiocruz já possa entregar ao PNI o primeiro milhão de vacinas Covid-19 produzidas pela instituição.
“Apenas seis meses após a assinatura do Contrato de Encomenda Tecnológica, já iniciamos a produção de uma vacina contra a Covid-19, baseada em uma das tecnologias mais avançadas no momento, e obtivemos o seu registro para ampla distribuição no país. A urgência que a gravidade dessa pandemia nos impõe fez com que todos os envolvidos trabalhassem incansavelmente e pudessem realizar em meses um processo que, normalmente, dura anos. Isso também não seria possível sem todo o apoio técnico da Anvisa em cada etapa do processo de submissão contínua. Trata-se de um dia histórico para a Fiocruz e para o Sistema Único de Saúde”, destaca a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima.
Na sexta-feira (12/3), foi iniciada também uma segunda linha de produção da vacina, o que aumenta a capacidade produtiva do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz). A expectativa é chegar até o final do mês com uma produção de cerca de um milhão de doses por dia.
Para Mauricio Zuma, diretor de Bio-Manguinhos/Fiocruz, “o registro definitivo da vacina Covid-19 é resultado de intenso trabalho, em estreita parceria com a Anvisa, desde junho do ano passado, por meio de reuniões e envio de informações de forma contínua para que tudo pudesse acontecer com a maior celeridade possível. Com isso, a partir da próxima semana passaremos a entregar a vacina processada internamente ao Programa Nacional de Imunizações, contribuindo definitivamente com o combate à pandemia no país”.
Uma das vantagens de um registro definitivo para a vacina é a possibilidade de uma imunização em massa no país, ampliando o público que passa a poder tomar a vacina para adultos maiores de 18 anos, conforme indicado na bula. Com a autorização para uso emergencial, a vacina ficava restrita a públicos pré-determinados. Vale destacar que o registro emergencial continua valendo para a vacinas prontas importadas do Instituto Serum, na Índia.
“Uma vacina registrada pela Agência, com uma etapa de produção já realizada no Brasil, representa maior autonomia ao país e acesso à vacina”, esclarece o gerente-geral de medicamentos da Anvisa, Gustavo Mendes, durante o comunicado transmitido pela Agência.
Como produtora da vacina no Brasil, a Fiocruz passa a ter também toda a responsabilidade técnica sobre ela, como já ocorre com as demais vacinas produzidas pela instituição e distribuídas para o SUS. A segurança da vacina foi amplamente estudada em ensaios clínicos de fase I, II e III, tendo seus dados publicados em revistas científicas reconhecidas internacionalmente. Sua segurança tem sido reiterada também por diversas agências regulatórias internacionais.
Na quinta-feira (11/3), a agência regulatória da União Europeia (European Medicines Agency – EMA) emitiu comunicado sobre a suspensão temporária da vacinação, adotada nos últimos dias por alguns países da Europa. A agência disse estar investigando os casos relatados, mas afirma não haver indicação para suspensão da administração da vacina. Segundo Agência, não há nada, até o momento, que indique uma relação desses eventos com a vacina, uma vez que eles não constam como efeitos colaterais esperados da vacina e o número de casos de trombose também não têm aumentado com a vacinação.
Representante da Organização Mundial da Saúde (OMS), Margareth Harris também se posicionou, nesta sexta-feira (12/3), em entrevista sobre o tema ao afirmar que a vacina da AstraZeneca é excelente. Segundo Harris, nenhuma relação causal foi demonstrada entre a vacina e relatos de coágulos sanguíneos, não havendo, portanto, motivos para suspender a vacinação.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Como podemos saber se um paciente em coma está consciente? O neurologista Steven Laureys procura por sinais de consciência em pacientes que não respondem a estímulos

Médicos de toda a Europa enviam seus pacientes aparentemente inconscientes para Laureys, um clínico e pesquisador da Universidade de Lige, para que sejam realizados exames mais abrangentes. A fim de fornecer o cuidado adequado aos enfermos, é necessário que médicos e familiares saibam se os pacientes têm algum grau de consciência. Ao mesmo tempo, Laureys, a partir dos doentes, aumenta seu entendimento sobre o assunto. 
É suficientemente difícil definir a palavra “vida”, e é ainda mais complicado definir a vida “consciente”. Não há uma definição única. Mas é claro que, na prática clínica, precisamos de critérios não ambíguos. Nesse cenário, todos precisam saber o que queremos dizer com um paciente “inconsciente”. A consciência não é “tudo ou nada”. Podemos estar mais ou menos despertos, mais ou menos conscientes. A consciência é frequentemente subestimada; muito mais do que pensamos acontece no cérebro de recém-nascidos, animais e pacientes em coma.
Há várias maneiras de fazer isso, e a tecnologia que temos à nossa disposição é crucial nesse sentido. Por exemplo, sem as técnicas de neuroimagem, teríamos muito menos conhecimentos na área. Estudamos os cérebros danificados de pessoas que perderam, pelo menos parcialmente, a consciência. Examinamos o que acontece durante o sono profundo, quando as pessoas perdem temporariamente a consciência. Também estamos trabalhando com monges budistas porque sabemos que a meditação pode provocar alterações no cérebro; conexões importantes na cadeia que forma a consciência apresentam mudanças em sua atividade. A hipnose e a anestesia também podem nos ensinar muito sobre a consciência. Em Lige, os cirurgiões operam rotineiramente pacientes sob hipnose (incluindo a rainha Fabiola, da Bélgica). Assim como ocorre com a anestesia, as conexões entre certas áreas do cérebro são menos ativas sob hipnose. E, finalmente, estamos curiosos para entender o que as experiências de quase morte podem nos dizer sobre a consciência. O que significa algumas pessoas sentirem que estão deixando seus corpos, enquanto outras se sentem subitamente entusiasmadas?
Duas redes diferentes parecem desempenhar esse papel: a rede externa, ou sensorial, e a rede interna de autoconsciência. A primeira é importante para a percepção de todos os estímulos sensoriais. Para ouvir, precisamos não apenas das orelhas e do córtex auditivo, mas também dessa rede externa, que provavelmente existe em ambos os hemisférios do cérebro – na camada mais externa do córtex pré-frontal e mais atrás, nos lóbulos parietal-temporais. Nossa rede de consciência interna, por outro lado, tem a ver com nossa imaginação – isto é, nossa voz interna. Essa rede está localizada no interior do córtex cingulado e no pré-cuneo. Para que tenhamos consciência de nossos pensamentos, essa rede deve trocar informações com o tálamo.
O que acontece com uma pessoa em coma?
Seu cérebro está tão danificado que nenhuma dessas redes funciona corretamente. Este mau funcionamento pode ocorrer como resultado de ferimentos graves, hemorragia cerebral, parada cardíaca ou ataque cardíaco. Um coma dura alguns dias ou semanas no máximo. Assim que os pacientes abrem os olhos, é dito que “despertam” do coma. Isso não significa, no entanto, que a pessoa esteja consciente. A maioria dos pacientes que sai do coma logo se recupera. Mas uma minoria vai sucumbir à morte cerebral; um cérebro morto está destruído e não pode se recuperar. Mas mesmo assim, alguns pacientes sem morte cerebral nunca se recuperam do coma também.
Como sabemos se um paciente que despertou do coma está consciente?
Para isso usamos a escala de coma de Glasgow. O médico diz: “Aperte minha mão”. Ou observamos se o paciente responde a sons ou toques. Se os pacientes não respondem, a condição costuma ser chamada de “vegetativa”; eles parecem estar inconscientes. Se o paciente responde, mas não consegue se comunicar, categorizamos a consciência como “mínima”. Tais pacientes podem, por exemplo, seguir uma pessoa com os olhos ou responder a perguntas simples. Se beliscarmos a mão deles, eles a afastarão. Mas esses sinais de consciência nem sempre são evidentes ou vistos em todos os pacientes. Um paciente que acorda de um coma também pode desenvolver a chamada Síndrome do encarceramento, ela está completamente consciente mas paralisada e incapaz de se comunicar, exceto através do piscar de olhos.
Se não houver resposta aos comandos, sons ou estímulos de dor, isso não significa necessariamente que o paciente está inconsciente. Pode ser que o paciente não queira responder ao comando ou que as regiões do seu cérebro que processam a linguagem estejam tão danificadas que a pessoa simplesmente não compreenda. Posteriormente, há casos em que o cérebro diz “mova-se!”, mas as vias neurais motoras foram cortadas. Os familiares do paciente são frequentemente mais rápidos do que os médicos para reconhecer se ele exibe consciência. Eles podem perceber mudanças sutis na expressão facial ou perceber movimentos leves que escapam à atenção do médico.
Pacientes de toda a Europa são trazidos para realizar testes na Universidade de Lige. Como você determina se eles estão conscientes?
Bem, é claro, o médico dirá: “Aperte minha mão” – mas desta vez enquanto o paciente está realizando exames de neuroimagem. Se o córtex motor é ativado, sabemos que o paciente ouviu e entendeu e, portanto, está consciente. Também queremos determinar as chances de recuperação e que medidas o médico ou a família do paciente podem tomar. Com os diferentes exames de neuroimagem, posso descobrir onde o dano cerebral está localizado e quais conexões ainda estão intactas. Esta informação diz aos membros da família as chances de recuperação. Se os resultados mostrarem que não há esperança alguma de melhora, serão discutidos tópicos difíceis com a família, como opções de eutanásia. Eventualmente nos deparamos com muito mais atividade cerebral do que o previsto, e então podemos iniciar um tratamento voltado para a reabilitação.

Anouk Bercht


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